Daniel Thame | [email protected]
O que você faria se num final de tarde sombria, naquela imensidão de solidão coletiva que é a capital paulista, durante a visita ao túmulo de um parente num cemitério praticamente vazio, presenciasse dois policiais militares assassinando friamente uma pessoa algemada e sem condições de se defender?
Conhecendo o modus operandi da polícia brasileira e sua clássica versão ´o marginal foi baleado e veio à óbito após reagir à ordem de prisão e trocar tiros com os homens da lei´, é bem provável que você tratasse de deixar o local o mais rápido possível, rezando para não ser visto e fazer companhia ao recém-assassinado e ao parente ora visitado e pranteado.
Fez o certo, diriam os amigos, ao tomar conhecimento da aventura quase transformada em desventura.
Fez o certo dirão todos aqueles que sabem que diante da violência extrema e do rompimento freqüente dessa linha cada vez mais tênue que separa uma parcela (pequena é verdade) da polícia da bandidagem, o melhor a fazer é se omitir.
Se possível, apagar da mente o testemunho daquele assassinato, como se ele não fosse real, mas uma aparição fantasmagórica, num cemitério de almas penadas e vidas friamente penalizadas.
Há, entretando, os que, desafiando a lógica e o bom senso, são capazes de tremer de indignação quando presenciam o que consideram uma injustiça.
Foi o que fez uma moradora de Ferraz de Vasconcelos, na periferia da Grande São Paulo, que ao presenciar o assassinato de um jovem dentro de um cemitério, ligou para o telefone de emergência da PM, o 190, e narrou, ao vivo, a execução:
– A Polícia Militar acabou de entrar com uma viatura aqui dentro do cemitério, com uma pessoa dentro do carro, tirou essa pessoa do carro e deu um tiro. Eu estou aqui próximo à sepultura do meu pai.
Em seguida, passa o prefixo da viatura policial e, ainda com o fone ligado, num gesto temerário aborda um dos policiais, que diz que apenas está prestando socorro. “É mentira. É mentira, senhor. É mentira. Eu sei bem o que ele fez”, diz a mulher ao atendente do 190. Além da extrema coragem, a ligação provavelmente evitou que a mulher se tornasse aquilo que no jargão marginal se convencionou chamar de queima de arquivo.
De acordo com o que apurou o comando da PM, o rapaz assassinado tinha passagens pela polícia e trocou tiros com os soldados, sendo atingido na perna e capturado. O procedimento padrão seria levar o bandido a um pronto socorro para receber atendimento e sem seguida ele que pagasse por seus crimes, como determina a lei.
Pelo menos quando se trata da lei que vale para pobres coitados…
Mas, no meio do caminho havia um cemitério, havia a lei não escrita de que bandido bom é bandido morto. E mortos, à exceção do que acreditam os adeptos do espiritismo, não falam.
No meio do caminho havia, também, uma mulher, que está sob proteção e que se tornou um exemplo de anônima coragem, que ao se indignar, não pensou no bandido, mas o ser humano que estava sendo vítima de uma atrocidade.
Lapidar, nesse caso, é a frase do comandante da PM ao se referir ao, digamos, azar dos policiais-assassinos:
-Talvez eles tenham acreditado que não tivesse ninguém. Mas num cemitério, num sábado à tarde, sempre tem alguém chorando por alguém.
Não apenas chorando por alguém, mas reagindo por alguém, como se uma simples ligação telefônica fosse possível tornar o mundo menos brutal e animalesco.
Daniel Thame é jornalista, blogueiro e autor do livro Vassoura