Esqueça todos os argumentos que você usava para dizer que não assistia ao Big Brother Brasil, reality show da Rede Globo que hoje se tornou um “game” milionário. O BBB não é mais aquele, que mobilizava multidões para dar “aquela espiadinha” em como pessoas desconhecidas se comportavam em um experimento de confinamento e comida regrada, com momentos contrastantes de bebidas liberadas duas vezes por semana em festas que pareciam uma louvação ao deus Baco.
A proposta parecia tão fútil – e para muitos de fato era –, que poucas pessoas com um mínimo de inserção mais intelectualizada na vastidão do simplismo que marca o telespectador brasileiro admitiam acompanhar os acontecimentos da “casa mais vigiada do Brasil”. Loiras – todas iguais – musculosos da mesma cepa e alguns gatos-pingados de negros, gordos e pessoas mais velhas, para dar aquele lustre de representatividade, o que incluía gays e tipos caricatos – geralmente negros e nordestinos.
Hoje, mais não. O BBB virou outra coisa, o formato antigo cansou, na opinião do Big Brother Boninho, que achou por bem transformar o que era um reality de confinamento em um game milionário. Para isso, chamou o gamer Tiago Leifert, que comanda o jogo como se estivesse no console de seu X-Box ou numa simulação de second life. Essas mudanças conceituais fazem toda diferença, a começar pela seleção. Enquanto o sonho dos primeiros BBBs era ganhar o prêmio e ser um/a ex-BBB – usufruindo de todas as oportunidades que essa nova categoria trazia –, hoje o objetivo é, nessa ordem: ficar milionário em 100 dias e ganhar milhões de seguidores nas redes sociais ou ficar milionário em alguns meses/anos com esses milhões de seguidores.
Para isso, não importa se precisam fazer a linha “paz e amor”, “militante antenado/a”, “barraqueiro/a”, “fada sensata” ou torturador/a eventual. Sim, a tortura psicológica virou arma de guerra e estratégia de jogo nessa edição do BBB. Claro que tortura psicológica é crime, está previsto na Lei 9.455/97, que define os crimes de tortura, e o Brasil todo está vendo, sentindo e repudiando quem o pratica no reality da Globo.
O Brasil vê, mas a Globo – um país à parte, com suas leis e interpretações da realidade próprias – não parece se importar muito. Acredita que tem o controle do jogo nas mãos, como se pode ver na última segunda-feira, após pelo menos três dias de torturas de diversos participantes contra um colega de confinamento, quando propôs um tal “Jogo da Discórdia”. Parece ter feito para que todos pudessem – agora coletivamente e na presença da vítima – descascar toda sorte de agressões verbais e mais torturas – ainda que sob um polimento mais lustroso, com palavras menos agressivas, mas com o mesmo sentido das que já haviam machucado o participante-alvo durante todo o fim de semana.
A proposta era simples. A intenção, talvez, mais complexa: “quem você acha que é um cancelador na Casa? Aponte duas pessoas”. Quase unanimemente, apontaram para Lucas Penteado, ainda que forçados a contrabalançar as acusações apontando uma segunda pessoa. A intenção da direção do programa, pelo que pareceu, era fazer com que todos refletissem: se estavam denunciando a cultura do cancelamento, o que eles estariam fazendo, se não cancelando o jovem Lucas? Mas o resultado foi apenas mais uma sessão de tortura, mesmo.
Por essas e outras, a edição atual do BBB está despertando manifestações muito negativas nas redes sociais, nos portais e programas especializados em generalidades. As pessoas aqui fora relatam que estão adoecendo por verem o que se passa na casa do BBB, na forma de tratamento a um jovem negro que não consegue ser perdoado pelos erros, embora suplique por perdão o tempo inteiro. Muitas pessoas relatam que as situações se tornaram gatilhos para situações psicológicas que muito já as machucaram.
Até quando a Globo vai normalizar, patrocinar e recompensar um crime cometido em (sua) rede nacional? No afã de cancelar o cancelamento – tema informal dessa edição do Big dos Bigs” -, a horda das redes sociais pode mudar a direção dos protestos a qualquer momento e cancelar quem finge combater os cancelamentos – a própria vênus platinada.
O Brasil tá vendo, mas tá cansando.
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Domingos Matos é jornalista e blogueiro, editor de O Trombone