Por Lisdeili Nobre
“Luanas” são cabelereiras, empregadas domésticas, advogadas, juízas, promotoras de justiças, médicas, professoras, donas de casa, engenheiras, policiais, são todas nós, as quais são violentadas diuturnamente,caso ousema romper com o pacto hegemonicamente cultural, que asmantém no papel de submissão e desigualdade.
Ontem em conversa com um grandeamigo repórter, ele me questionava o porquê da violência contra a mulher não parar de crescer,eque isto seria também um sentimento popular. Respondi ao meu caro amigo, que os equipamentosda prevenção primária de proteção à mulher sãoinsuficientes, os quais são primordiais, neste tipo de violência, ou seja, há poucos esforços institucionais, voltadospara a causa da violência doméstica,para a identidade e papéis sociais dos envolvidos neste fenômeno criminoso.
As DEAMs que são unidades especializadas da Polícia Civil e a Lei 11.340 (Lei Maria da Penha) são marcos neste enfrentamento, mas são políticas criminais que apenas fomentaram a mulher a denunciar, uma violência já sofrida. São equipamentos policiais, que atuam quando o crime já ocorreu, ou seja, instrumentos governamentais que não atuam na prevenção primária da violência de gênero. Atuar na origem do fenômeno crime, é primordial, uma vez que esta violência é estrutural, o que equivale dizer que é cultural.
Cultura é mutável, desta forma, para enfrentar a violência contra a mulher, depende de ações enérgicas na formação cognitiva do ser humano e de seu papel gênero. Deve-se atuar na compreensão que a mulher é livre, e tem todo direito de fazer as suas escolhas e de dizer NÃO ao um homem ou até mesmo à uma mulher quando ELA quiser.
Trata-se de enfrentar uma cadeia social complexa, que há séculos coloca a mulher em setores públicos e privados em condições de desigualdades, e por conseguinte, a mantem na sua grande maioria em situação de vulnerabilidade. Asujeita àuma série de dependências, sendo as de maiores destaques: a financeira, emocional, intelectual e familiar.
A prisão de autores de feminicídios das “Luanas” traz apenas um acalento no sentimento de justiça, mas por si só, não altera este cenário de disparidade social, para a menina, a jovem, a mulher e a idosa.É sobretudo necessário há séculos, décadas medidas que possam influenciarno comportamento, costumes e hábitos, gerando uma igualdade de gênero, em todos os âmbitos da sociedade. Ações públicas que retiram nossas “Luanas” das prisões dos lares e dos relacionamentos tóxicos, as aprisionando exclusivamente em atividades domésticas e familiares. Mais do que ações policiais, é preciso, ampliar as mulheres nas salas de aula e no mercado de trabalho. As redes de ensino em todos os níveis têm que discutir os papéis de gênero e desenvolver uma nova cultura de isonomia entre homens e mulheres.
Hoje, o Litoral Sul da Bahia conta com a Rede Feminista Cristiane, que tem marcado presença incisiva em movimentos de defesa dos direitos femininos. Suas feministas promovem gestões públicas em busca de novos equipamentos na defesa da mulher e cola, colam duro quando há violência com qualquer mulher, exigindo todas as reparações devidas. A Rede tem composição bastante heterogenia, são tantas mulheres empoderadas que não haveria espaço aqui para dizer o nome de tod@s.
“Luanas”, abrem alas para o Agosto Lilás, que é uma cor que degrada do rosa ao azul. Se rosa identifica o feminino, há controvérsias, mas o lilás caminha em direção ao azul. Azul que identifica com o horizonte. Horizonte que identifica com liberdade. Liberdade que identifica com que o desejamos, sermos LIVRES.
Lisdeili Nobre é Doutoranda em Políticas Sociais e Cidadania, Delegada de Polícia Civil, Docente do Curso de Direito na Rede UNIFTYC, Cronista de diversos Blogs, Abolicionista Penal, Ativista social em projetos de Politicas Criminais de Prevenção Primária e sustentabilidade ambiental e Apresentadora do Política sem Mistério transmitido pela TV Itabuna